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A dor está sempre cá”: Vivências do luto materno na perspetiva de mães enlutadas – uma análise fenomenológica interpretativa
Publication . Silva, Margarida Xavier da; Martins, Ana Cristina
O luto materno constitui uma experiência singular e profunda, que rompe com a ordem natural da vida e provoca um abalo emocional, identitário e relacional. A morte de um filho na idade adulta desafia o sentido de existência da mãe, desestruturando projetos, vínculos e expectativas, ao mesmo tempo que exige um processo complexo de adaptação e reconstrução. Este estudo explora o luto materno pela perda de filhos adultos, uma realidade ainda pouco abordada na literatura, integrando numa perspetiva fenomenológico-existencial as dimensões conjugais, espirituais e de crescimento pós-traumático, mostrando o luto como um processo relacional, dinâmico e transformador de sentido. Recorreu-se a uma abordagem qualitativa de natureza fenomenológica, com base na Análise Fenomenológica Interpretativa (IPA), através da realização de entrevistas individuais em profundidade com oito mães que perderam um filho adulto, de modo a aceder à dimensão subjetiva das suas vivências. A análise revelou que o luto materno é um processo não linear, marcado por dor intensa, sentimentos de vazio, culpa e desorientação, mas também por movimentos de reconstrução e transformação pessoal. Emergiram sete temáticas centrais: (1) Desorganização emocional e existencial no luto materno; (2) Temporalidade, flutuações e processo de luto; (3) Continuidade espiritual e integração da perda; (4) Transformações identitárias e redefinição do sentido de vida; (5) Gestão social da dor e da exposição pública; (6) Relação conjugal; e (7) Reconstrução de valores e crescimento pós-traumático. Os resultados evidenciam o caráter relacional, espiritual e transformador do luto, revelando possibilidades de reconstrução de sentido e de crescimento apesar da dor.
Bem-estar docente: uma teia da sua multidimensionalidade
Publication . Nogueira, Rita de Carvalho Cruz; Silva, José Castro
O bem-estar docente necessita de ser mais bem compreendido, não só porque
existem diversos desafios nos sistemas de educação atuais, mas também devido ao
impacto que tem na qualidade do ensino e, consequentemente, na aprendizagem dos
alunos. No entanto, não existe um consenso sobre a sua definição e as dimensões que o
compõem. O presente estudo teve como objetivo descrever a multidimensionalidade do
bem-estar docente e avaliar a reciprocidade e força das relações entre as variáveis das
suas dimensões (bem-estar social, bem-estar físico e mental, bem-estar cognitivo e bemestar
subjetivo). Com este intuito, obteve-se a participação voluntária de 1822 docentes
portugueses, desde o ensino pré-escolar ao fim do ensino secundário, 81,9% do género
feminino e 18,1% do género masculino, que responderam a um questionário de oito
escalas relativas às dimensões do bem-estar docente. Os resultados comprovaram que
todas as variáveis estavam significativamente correlacionadas e, com recurso à análise
de redes, foi possível ilustrar as diversas conexões entre variáveis, o que suportou a
estrutura teórica de dimensões do bem-estar docente. Além disso, a variável
Envolvimento dos Estudantes destacou-se como sendo uma variável chave na rede do
bem-estar, devido à sua elevada centralidade de força, seguida da Relação com o Diretor
– também se confirmou que ambas as variáveis eram preditoras significativas do bem estar
mental. Em suma, comprovou-se a multidimensionalidade do bem-estar docente, a
reciprocidade das relações das suas variáveis e revelaram-se variáveis chave que podem
ser relevantes para investigações futuras.
Estatuto Socioeconómico e Prevalência de Dependência: Um Estudo Empírico sobre as Dimensões Sociais das Dependências Químicas e Comportamentais em Portugal
Publication . Teixeira, Mafalda Mendonça de Jesus de Assis; Martins, Jorge Simões
Vários estudos sugerem a existência de uma relação entre o nível socioeconómico e a prevalência de dependências químicas e comportamentais. Partindo da premissa de que a classe social é um determinante estruturante da saúde mental e do comportamento aditivo, o presente estudo procedeu a uma análise empírica da prevalência das dependências químicas e comportamentais em função do nível ou estatuto socioeconómico. A amostra foi composta por 207 adultos residentes em Portugal, com idades compreendidas entre os 18 e os 75 anos (M = 29,98; DP = 11,43), recrutados através de plataformas online, nomeadamente redes sociais como Facebook, Instagram e grupos de Whatsapp. Os participantes completaram um questionário online programado no GoogleForms, o qual foi composto por questões sociodemográficas e perguntas formuladas, com base nos critérios de diagnósticos do Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-5) para determinar dependências químicas e comportamentais. Os resultados do presente estudo indicam que os indivíduos de nível socioeconómico mais baixo apresentam, em média, uma maior prevalência de dependências químicas e comportamentais, bem como uma maior severidade em alguns casos específicos, como no caso do consumo de tabaco e sedativos, hipnóticos e ansiolíticos (SHA). De destacar que se observam tendências consistentes, embora estatisticamente não significativas, que sugerem uma relação entre vulnerabilidade social e padrões mais severos de dependência. Este estudo suporta o papel crucial que as desigualdades estruturais e a exclusão social podem exercer na iniciação e manutenção das dependências químicas e comportamentais, defendendo assim uma abordagem multidimensional e integrada assente em políticas de saúde públicas e práticas clínicas que tenham em consideração o impacto que a vulnerabilidade socioeconómica pode ter na prevalência das mesmas. Assim, este estudo pretende contribuir para uma compreensão mais ampla da relação entre desigualdades sociais e saúde mental, nomeadamente no contexto de perturbações por consumo de substâncias químicas e outros comportamentos aditivos, oferecendo orientações para programas de intervenção sensíveis ao contexto social e mais adequadas, eficazes e alinhadas com as realidades sociais e económicas dos indivíduos.
Quiet quitting e desempenho contextual: O papel moderador da anti-work orientation
Publication . Simões, Ana Patrícia Felgueiras; Cesário, Francisco
O presente estudo teve como objetivo principal analisar a relação entre o fenómeno do Quiet Quitting e o Desempenho Contextual dos colaboradores, procurando compreender de que forma a Anti-work Orientation influencia ou modera esta relação. Procurando explorar como é que as atitudes face ao trabalho e os níveis de envolvimento se refletem em comportamentos organizacionais. A amostra foi constituída por 454 participantes, ativos no mercado de trabalho. Os resultados demonstraram uma relação negativa e significativa entre o Quiet Quitting e o Desempenho Contextual, confirmando parcialmente a hipótese inicial. Observou-se ainda um efeito de moderação da Anti-work Orientation na dimensão Amotivação do Quiet Quitting, reforçando o impacto negativo desta dimensão sobre o desempenho contextual. Por outro lado, a dimensão Falta de Iniciativa revelou um efeito negativo direto, mas não moderado. Estes resultados evidenciam a importância de compreender as novas atitudes face ao trabalho e os seus efeitos sobre os comportamentos organizacionais. Destacam-se implicações práticas para a gestão de recursos humanos, nomeadamente a necessidade de promover ambientes laborais que valorizem a motivação intrínseca, a autonomia e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, de modo a reduzir a propensão do Quiet Quitting e a potenciar o Desempenho Contextual.
Influência de variáveis ambientais nas atividades dos golfinhos-roazes (tursiops truncatus) na região do estuário do sado
Publication . Ferreira, Joana Cristina dos Santos; Santos, Manuel Eduardo dos
A população residente de golfinhos-roazes (Tursiops truncatus) do Estuário do Sado é uma das poucas comunidades estuarinas desta espécie na Europa, apresentando elevada importância ecológica e vulnerabilidade face a pressões antropogénicas. Este estudo analisou a relação entre variáveis ambientais locais e as atividades dominantes (alimentação, deslocação, socialização e repouso), visando compreender como o meio físico influencia o uso do habitat por esta população.
A recolha de dados decorreu entre março e agosto de 2025, ao longo de 15 saídas de campo realizadas com a equipa da Reserva Natural do Estuário do Sado (RNES). Foram registadas 151 observações comportamentais durante 40 h 42 min de esforço de amostragem, com golfinhos presentes em 73,3% dos dias. As posições dos grupos foram georreferenciadas e associadas a variáveis ambientais processadas em QGIS, sendo a influência destas avaliadas através de uma regressão logística multinominal.
A profundidade, a distância à costa e o período do dia foram as variáveis que melhor explicaram as diferenças comportamentais. A deslocação foi a atividade mais frequente (52,7%), seguida da alimentação (25,3%) e da socialização (22,0%), enquanto o repouso foi registado apenas uma vez. A socialização ocorre preferencialmente em águas mais rasas, ligeiramente afastadas da margem e durante a tarde, enquanto a deslocação se associa a zonas mais profundas, próximas da costa e durante a manhã. A alimentação não revelou associações significativas com as variáveis testadas.
Os resultados evidenciam o papel da heterogeneidade ambiental na organização espacial e temporal desta população, reforçando a importância de integrar dados espaciais e comportamentais em estratégias de conservação direcionadas a populações pequenas e isoladas.
